A Linhagem da Escuridão: A Caixa (Prólogo) - Multiversos
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Contos

A Linhagem da Escuridão: A Caixa (Prólogo)

Michel Euclides

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Primeiro ele ouviu os latidos insistentes de Brun, seu rottweiler. Ainda estava meio sonolento quando ouviu o grito do carteiro e levantou, zonzo, para atendê-lo no portão.

– Cala a boca, Brun! – disse enquanto abria a porta. O cachorro fez silêncio e sentou.
– Baita cachorro esse, mano! – falou o carteiro.
– Relaxa, ele é tranquilo.
– Deixa ele aí do lado de dentro mesmo, só por garantia. Essa caixa é para você. Assina o canhoto da nota, por favor.

Miguel assinou no automático e mal ouviu o “obrigado” do carteiro. Aquela era uma correspondência inesperada.

Deixou a caixa sobre a mesa enquanto ia ao banheiro, pensando se devia ou não desempacotar aquele problema. Sim, aquele era um problema dos grandes, de outra forma não teria vindo de seu pai, que não via a mais de vinte anos.

Parecia cansado no espelho. Parecia velho. Sinais de uma calvície vindoura, barba cheia de pelos brancos, olheiras. Tinha trinta e quatro anos, mas parecia estar aos quarenta.

– Que dia foda. E apenas começou.

Tomou um banho, escovou os dentes e sentou-se à mesa da cozinha. Mamãe poderia ter tido uma cozinha como essa, pensou enquanto olhava para os móveis e eletrodomésticos brancos. Era um cômodo pequeno, mas espaçoso e bem decorado. Herdara esse gosto dela.

“Mas a aparência e a maneira de pensar e agir do pai!”. Assim dizia a avó quando estava com raiva ou chateada com ele.

– Odeio quando o passado entra sem pedir – sussurrou, levando a mão até a caixa. Levantou sem tocá-la e resolveu fazer café.

Levou Brun para dar uma volta após o desjejum. Eram quase dez horas quando retornou, suado, cansado e com fome.

Após o banho, resolveu atacar a maldita caixa. Fosse o que fosse, não deixaria esse problema para depois.

Papelão simples. Seu pai nunca fora um homem preocupado com detalhes e impressões, não do que viesse dele. Dentro do embrulho, uma maleta de couro antiga, mas bem conservada. Sobre a maleta, uma carta.

Escrita à mão, letra caprichada e equilibrada. Nem parecia que havia sido escrita de dentro de um hospício.

“Miguel, se você está lendo isto é porque estou morto.
E sei que você não vai lamentar, pois somos muito parecidos. Eu já não fazia mais parte de sua vida, e sei que não era parte de suas preocupações, nem de suas orações. Sei também que você não precisa do meu perdão, mas talvez eu precise do seu.
Não sei que idade tem agora, pois não posso prever quanto tempo ainda vou conseguir ficar vivo antes que eles venham a mim… mas espero sinceramente que já seja maduro o suficiente para encarar o que escrevo não como delírios de um louco, mas como fatos vistos e vividos.
Talvez sua primeira reação seja duvidar do que vou dizer, mas tenho algumas provas que vão me ajudar a fazer com que acredites em mim. A primeira: pergunte a sua avó pelas cartas que lhe escrevi durante todos estes anos, Ela as têm, mas não lhe entregará se você não pedir. Acredito que ela não tenha me perdoado pelo que houve com sua mãe, mas paciência. Nem eu me perdoei ainda.
A segunda prova: dentro do segundo bolso da maleta há um envelope marrom.
Abra-o agora. Por favor.”

Miguel fez o que seu pai lhe pedia dominado por um senso incomum de curiosidade e urgência. Dentro do envelope havia três fotografias velhas: uma de sua mãe, usando um longo vestido branco e rendado, sentada no muro baixo de sua antiga casa no Jacarecanga, fumando. Como era linda.

A segunda foto trazia os três juntos, sorrindo e comendo pizza. Pareciam felizes. Nela, Miguel deveria estar com três ou quatro anos, pouco tempo antes do incidente que matou sua mãe. A similaridade com seu pai deixou-o assustado.

A terceira era uma foto mais recente, de Miguel com treze ou catorze anos usando o uniforme do Liceu do Ceará. Tinha os cabelos compridos e cara de mau. Começava a parecer com o pai. Sua infelicidade era palpável.

Não sabia o que o pai queria provar com essas fotografias, mas Miguel não se sentira tocado.

Voltou à carta.

“Sei que até agora não consegui te impressionar, mas a terceira prova vai aguçar sua curiosidade. Ela vai acontecer assim que você terminar de ler. Tenha paciência comigo.
Não tomei remédios durante uma semana para escrever o mais lúcido que conseguisse. Acho que estão desconfiando de mim, pois ouvi o doutor dizendo que toda a minha medicação deveria ser, a partir da noite de hoje, injetável.
Filho, eu tive culpa no que aconteceu com sua mãe, mas não do jeito que você pensa. Não como te disseram. Você vai entender melhor no futuro, quando começar a explorar o que deixei na pasta. Quando começar a ver que o que aconteceu – que acontece! – não é loucura. Acredite-me, eu preferia mil vezes estar louco.
Sinto muito por não estar presente quando você precisou, mas eu te amo. Sempre te amei. Espero que possa me perdoar algum dia, quando começar a ver e a compreender. Eu não quis que as coisas fossem assim, mas elas aconteceram e eu tive de reagir. Nunca fui de ficar esperando se pudesse evitar. Sei que sua mãe, esteja onde estiver, ama e protege você. Espero poder encontrá-la um dia e pedir perdão por tudo.
Com amor,
Miguel Antunes.
Fortaleza, 09 de Julho de 1986
P.S.: Atenda a porta. É a terceira prova.”

Nesse momento houve três batidas na porta da frente.

– Mas que porra…?

Com o coração aos pulos, Miguel caminhou até a entrada da casa. Abriu a porta e não havia ninguém. Teria sido sugestionado pela leitura da carta? Brun estava dormindo, o portão que dava para a rua encontrava-se fechado…

Fechou a porta e, quando se virou, percebeu que não estava sozinho. Havia alguém na casa com ele. Um cheiro diferente. Cigarro. Perfume cítrico.

– Flor de limão – disse uma voz feminina vinda da sala. – Venha, Miguel. Não vou lhe fazer mal.

Uma senhora de cabelos brancos e pele fina e enrugada estava sentada no sofá, fumando.

– Quem é você? Como entrou aqui?
– Se você leu a carta de seu pai, eu sou a terceira prova. E é claro que leu, pois de outra forma eu não estaria aqui. Mas tenho pouco tempo. Sente-se.
– Saia da minha casa!
– Controle-se, rapaz. Até sua mãe era mais corajosa que você.
– Não fale de minha mãe!

A senhora tragou o cigarro.

– Eu conheci seu pai e sua mãe melhor que você – disse. – Entendo sua dor e suas dúvidas, mas já está na hora de crescer e ver as coisas como homem. Sente-se para que eu possa fazer minha parte!

Mesmo sem querer, ele sentou. Havia uma força agindo sobre ele, forçando-o.

– O que você fez comigo?
– Nada – disse ela. – Agora podemos conversar. E você vai me ouvir, pois quando este cigarro se apagar será hora de eu ir.

Miguel ficou calado. Como aquela mulher entrara ali? O que ela queria?

– Seu pai não era louco, Miguel. Foi um dos homens mais valorosos que já conheci. Um homem duro, lutador, corajoso… seus únicos defeitos eram ser impetuoso e amar demais sua família. Ele era louco por sua mãe. E por você.
– Os médicos que o internaram e o restante da família parecem discordar de você, Dona…
– Você saberá meu nome em tempo, mas não agora. E essas pessoas não sabem de nada. Nem você.
– Quando meu pai morreu? Se é que você sabe, já que diz que o conhecia tão bem.
– Ele faleceu hoje pela manhã. Exatamente na hora em que a caixa chegava às suas mãos.
– Ah não. Isso é loucura.
– Faz parte das coisas que você ainda não sabe, filho. Mas vai saber.
– E se eu não quiser?
– É uma escolha sua. Mas se você é filho de seus pais, há uma curiosidade violenta crescendo.

Miguel manteve-se em silêncio. A velha olhou ao redor da sala e tragou o cigarro mais uma vez. Estava quase chegando à metade.

– Sem fotos?
– Não gosto de fotos. Trazem lembranças ruins.

Ela fez que sim.

– Você tem namorada?
– Isso não é importante para você.
– Responda – falou ela, e havia uma firmeza assustadora em sua voz.
– Não tenho namorada – disse irritado.
– E mantém-se afastado da família.
– Pode se dizer que sim.
– Por que?
– Não sinto necessidade deste tipo de ligações.
– Bem, é melhor assim – falou ela. – Não terminou bem para o seu pai, nem para os que vieram antes dele.
– Como assim?
– Há coisas em nosso mundo, rapaz. Coisas más. Criaturas da escuridão. Elas estão entre nós desde tempos imemoriais, caçando, matando, escondendo-se. Seu pai foi o último de uma linhagem de guerreiros que lutava contra eles.

Miguel olhou para a velha e começou a rir.

– Sério isso? Eu sou a última esperança da humanidade contra demônios, vampiros e tal? E o que eu sou? Trago em mim o sangue de Arthur Pendragon?

A velha não pareceu ofendida.

– Seu pai reagiu da mesma maneira quando soube. Parece que estou conversando com ele de novo. – disse ela, e Miguel pôde perceber lágrimas em seus olhos. – Mas isto é real. O mal existe. E você é filho de seu pai.
– Olha, acho que estou entendendo… você esteve internada com meu pai e, quando ele morreu, fugiu do hospício para me atazanar com a loucura de vocês. Aguarde um instante enquanto eu faço uma ligação…

Miguel levantou e caminhou até a cozinha para apanhar o telefone. Mas ela estava sentada à mesa, cigarro na boca, balançando a cabeça. Parecia decepcionada.

– Meu tempo está acabando, preciso deixar as coisas claras. Você é imaturo, fraco e covarde. Cheio de traumas e ressentimentos, afastou-se de todo mundo na tentativa de evitar sofrimento. Coloca-se diante da vida como uma vítima, e passa mais tempo se lamentando sozinho do que fazendo algo que tenha sentido. Mas você tem potencial, e carrega em si a possibilidade de se tornar alguém relevante na luta contra o Mal.
– Minha senhora, desculpe, mas…

Não chegou a terminar. Foi tudo muito rápido: ela estava sobre ele, olhos vermelhos, presas e garras. Aproximou a boca de seu ouvido e sussurrou:

– Nós somos reais, filho. Eu costumava estar do outro lado, sabe? Bebendo o sangue de vocês, rasgando suas gargantas, vestindo suas peles como roupas… mas seu avô me deu uma chance de redenção, e eu comecei a trabalhar junto com ele. E depois com seu pai. E agora venho aqui conversar com você, e o que encontro? Um bebê chorão cínico e condescendente.

Ela não exalava cheiro além do perfume e da fumaça do cigarro, mas esses odores estavam impregnados na roupa dela, não na pele. Seu hálito era inodoro, e sua pele era fria como gelo. Ela continuou:

– Vou te dar essa chance porque você é o último, e quando eu voltar você vai me dar a resposta. Se disser que não, nunca mais nos veremos, e você continuará vivendo essa vidinha insossa. Mas se disser que sim, iniciaremos seu treinamento e você será o depositário de nosso legado. Muita coisa depende de você, Miguel. Não deixe que a morte de seus pais tenha sido em vão.

Ela levantou e caminhou até a cadeira onde estava. Sua aparência era a mesma de antes, uma avozinha inofensiva. Ele ficou deitado no chão, o coração explodindo, a respiração descontrolada.

– O que é você? – sussurrou ele.
– Hoje sou uma amiga, para sua sorte.

Miguel sentou, mas em silêncio.

– Você vai examinar o conteúdo da pasta hoje, e eu voltarei assim que terminar. Eu saberei o horário, não se preocupe. É meu trabalho saber das coisas. Mas desta vez não vou entrar sem ser convidada, é preciso que você me peça. Consome muito do meu poder fazer as coisas desta maneira, sem a permissão do dono da casa.
– Você é uma vampira?
– Você já viu vampiros andando à luz do dia? – perguntou ela.
– Não sei. Não sei de mais nada.
– Se até a meia-noite você não abrir aquela pasta, eu não voltarei e ela sumirá. Tudo relacionado ao dia de hoje será lembrado de você de maneira confusa, e atribuído ao luto pela perda de seu pai. Uma alucinação moderada, pensará você. Mas se abri-la e explorar seu conteúdo, significa que você quer saber mais, e para saber mais precisará ser um de nós.
– E quem são vocês?
– Se quiser saber, você precisa abrir a porta e espiar dentro da escuridão, Miguel.

O cigarro dela acabou. Ela foi até a cesta de lixo e jogou a guimba.

– Você decide, Miguel – disse a velha, e desapareceu diante de seus olhos.
– Deus, estou ficando louco! – pensou ele. Ficou mais alguns minutos sentados, os pensamentos girando sem rumo. O que estava acontecendo. Precisava entender. Precisava saber. Precisava ver.

   Dentro da escuridão.

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Contos

Efeito Fallout – Parte 1

Wilson Júnior

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Palácio da Abolição – Fortaleza-CE, 6 de agosto de 1975.

– O mundo todo tá fazendo isso Deputado. – dizia Paulo Albuquerque Queiroga de uma maneira despretensiosa.

– Acho simplesmente esplêndido como você fala do assunto, como se fosse banal. – respondeu Deputado Astolfo Borges, enxugando a careca suada, falar no assunto lhe dava calafrios.

– Se não formos nós, outros vão passar na frente. Pensei que o senhor fosse um desbravador, um vanguardista.

– E mais uma vez eu te pergunto Paulo, e os Militares? – questionou o deputado ignorando a provocação.

– Os militares tão caçando comunista homem, e digo mais, ninguém vai saber! A gente inventa um desvio de rio e retira todo mundo de perto. É um pedaço de terra seca e improdutiva, quem vai fazer questão?

– Tu sabe que o povo é disperso e a gente vai ter que fazer uma busca grande.

Paulo pensou durante o poderia ser meio segundo e respondeu.

– Nada de pente fino, dá aquela passada geral, quem ficar, ficou.

Borges passou o pano pela careca mais uma vez, a frieza do homem a sua frente era assustadora. Mas os Queiroga não se tornaram uma família poderosa sendo delicados. Ele apagou o cigarro no cinzeiro de cristal. Olhou pela janela vendo a luz do sol se por, era uma conversa estranha para se ter num belo entardecer.

– Olhe deputado não quero lhe pressionar, mas se eu levar esse empreendimento pro Maranhão ou pro Piauí vai ter deputado se estapeando para participar. Busquei o senhor por que meu pai sempre lhe tratou como um visionário, isso somado ao fato de eu amar meu Ceará e ser aqui que eu quero edificar. – As palavras foram ditas com leveza, mas pesavam como um ultimato.

– Tudo bem! Vamos botar para frente a empreitada.

– Depois desse empreendimento caro colega, nós seremos donos dessa cidade. É dinheiro muito. E de verdade, as verdinhas americanas.

– Temos que colocar mais gente na folha. Quanto menor a chance de dar problema melhor. Não quero acordar num pau de arara. – falou o Deputado cedendo.

– Mas isso é fácil. Como eu te disse é dinheiro muito. – Os de Paulo brilhavam como de uma criança na manhã de natal.

“Se não for eu, vai ser outro” ecoava na mente do Deputado Astolfo enquanto ele apertava a mão do empresário, selando seu pacto com o demônio.

 

                                                                       Sertão dos Inhamuns – CE, 30 de Outubro de 1976.

– Raimunda venha cá mulher. – disse Francisco impaciente.

– Que foi homem? Que ira doida é essa?

Ela saiu para o quintal, o sol do matutino ainda numa temperatura agradável, o marido ordenhava a vaca da família e as crianças davam de comer as galinhas. O quintal era bonito, tinha goiabeira, pé de seriguela e cajá, a orta estava bem florescida pronta para colher.

– Mulher já faz uns dias que os homens do governo mandaram a gente deixar a casa, que o rio ia passar.

– Que história de rio o que homem, eu pensando que era alguma coisa séria. Tu sabe que rio tá a não sei quantas léguas daqui, isso é conversa do governo pra ficar com nosso pedaço de chão. Se eles quiserem nosso lar, vão ter que vir aqui e tirar a gente. – finalizou Raimundo batendo o pé e levantando poeira. O marido não contestou mais, ele mesmo tinha suas suspeitas da conversa.

– E Chiquinho, tire Maria de perto da cerca para ela não se cortar. – falou para os filhos que corriam mais do que alimentavam as galinhas.

A terra deles era pequena mas suficiente, apesar da vida no sertão ser difícil, o poço artesiano cavado pelo governo ficava perto de sua casa, era forte e quase sempre tinha água. As plantações davam para encher sua barriga deles e dos sete filhos, além de conseguirem pasto para os cabritos e a vaca.

– Se a gente arredar daqui, não acha outro canto bom como esse nunca mais. Deus até castiga. – disse Raimunda de olhos cheios admirando seu lar.

– Olha lá vem Cicero voltando.

Cicero vinha a cavalo, cavalgava veloz pela estrada de terra batida. Ao se aproximar seus pais viram que sua feição estava pálida.

– Que cara é essa menino? Parece que viu visage. – brincou Raimunda com filho.

– O negócio do rio era verdade mãe, o povo da cidade tudo pegou o rumo, teve até morte de gente que brigou com o pessoal da cidade que chegou para dar o comunicado. – explicou Cicero esbaforido.

– Quando foi isso rapaz? – perguntou Francisco.

– Foi ontem a noite pai, alguns moradores se esconderam e ficaram por lá, eles me contaram tudo.

– Eu não te falei mulher, não se brinca com essas coisas do governo. – gritou ele para esposa demonstrando uma agressividade incomum.

– Você fale direto comigo que num sou mulher de bordel. E outra ainda acho que seja invenção de gente querendo roubar as terras do povo.

– É não mainha, vamos embora por favor. – suplicou Cicero. – Eu vi umas camionetes com pintura militar, passando pela estrada.

– O meu filho, mas esse é nosso lar.

– Mainha, lar vai ser qualquer lugar que a gente fique junto, né pedaço de terra não.

Comovida com as palavras e a preocupação do filho, as lágrimas escorreram pela face marcada de Raimunda.

– Pois vá ajeitar a carroça com seu pai, vamos sair por enquanto, se for balela do governo a gente volta. Se for desvio de rio mesmo dá tempo da gente sair ainda.

Apressadamente a família organizou os poucos pertences importantes na carroça, levando também o máximo de alimento possível e amarrando os bichos na carroça. No exato momento que saiam de casa uma sirene altíssima ecoou.

“If you can hear this, you are in the blast zone, seek shelter”

“If you can hear this, you are in the blast zone, seek shelter”

“If you can hear this, you are in the blast zone, seek shelter”

– O que isso que eles tão falando? – perguntou Francisco ao filho.

– O povo da cidade disse que o pessoal que passou por lá falava engraçado, pareciam ser do estrangeiro. O padre falou que ira Inglês.

– O que isso quer dizer?

– Não sei, será que é sobre a inundação?  – respondeu Cicero coçando o queixo.

– Olha um avião, nunca tinha visto por essas bandas, só em livro. – falou o menino Chiquinho mostrando no céu a aeronave que cortava as nuvens ao longe, seus irmão menores empolgadíssimos saltitando e apontado a estranha visão.

A matriarca agora saia de casa para se juntar aos seus familiares que encantados olhavam aquele curioso objeto metálicos viajar pelos céus. Em um determinado ponto, próximo as terras da família um objeto foi lançado de dentro da nave. Abrindo um paraquedas pouco depois da queda. Estavam todos hipnotizados por aquela aparição tão incomum ao cenário do agreste.

Então um grande brilho, seguido de cegueira completa. O som emitido era ensurdecedor,  tão alto que você simplesmente deixa de ouvir e sente apenas o violento impacto reverberar no corpo. Raimunda recobrou a visão apenas para ver um mar de fogo envolver e consumir sua família. O tempo desacelerou e mesmo assim ela pode ver os braços e pernas magros de seus filhos menores queimarem mais veloz do que palha seca na fogueira. Viu a pele ser empurrada para longe dos ossos por aquela combinação demoníaca de fogo e vento. Viu seu marido se tornar um esqueleto vermelho, e o sofrimento por mais rápido que tivesse sido foi tão violento que ficou gravado na sua caveira. Depois da ironia do tempo de deixá-la ver o fim dos seus entes queridos, ele acelerou novamente para consumi-la, e então restou apenas o vazio.

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Contos

A Segunda Vinda

Michel Euclides

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Marina passava por uma noite difícil, mas não muito diferente das últimas em Fortaleza. Veja sempre o lado positivo, pensou. Deu uma mordida no pão seco que Matias, o rapaz magro de cabelos alourados, havia arranjado para ela. Pelo menos hoje não dormiria com fome.

Sentiu o bebê mexer e tentou se ajeitar sobre o papelão em que estava deitada, na calçada de uma grande loja no Centro. Há pouco tempo o relógio da Praça do Ferreira tocara as doze badaladas, e os carros passavam com menos frequência agora. No silêncio e no frio, ela começou a cantar uma antiga cantiga de ninar para seu bebê.

– Falta pouco agora, meu amor – sussurrou ela, passando a mão sobre a barriga pontuda. – Logo, logo a mamãe vai poder ver seu rostinho, e vai ficar tudo bem.

Ela começou a chorar, mas ouviu passos se aproximando.

– Calma. Sou eu.

Matias aproximou-se e estendeu a ela um lençol que deveria ter sido branco em alguma década distante. Ele era jovem, mas a vida nas ruas roubara-lhe a juventude. Seu rosto era enrugado e escuro, mas o olhar era carinhoso e preocupado. Um anjo, pensou ela aceitando o cobertor.

– Hoje cês vão ficar mais quentinhos – disse o rapaz. – Pode dormir que eu vou ficar olhando.

– Não sei o que seria de mim sem você, Matias – disse ela.

Ele sentou ao lado dela, mas mantendo distância. “Como ele é respeitador”, pensou Marina. Ela sabia que era bonita, e sabia que o rapaz gostava dela. Ele poderia ter se aproveitado dela. Mas sempre a tratou com muito carinho.

– Vou proteger vocês. E esse menino aí na tua barriga. Ele é especial.

Sim, a criança era especial. Mesmo que sua família não acreditasse no que ela dizia.

Terminou de comer o pão e deu um beijo no rosto de Matias.

– Me abraça? Está congelando aqui.

– Melhor não – disse ele.

– Tudo bem – falou a moça, mas não estava. Ela só queria se sentir protegida mais uma vez.

Marina deitou de lado sobre o papelão e tentou procurar uma posição confortável para a barriga. O bebê chutava muito, e ela imaginou-o como um grande jogador de futebol. Ou talvez alguém ainda mais importante.

– Talvez ele mude o mundo – sussurrou ela enquanto se cobria. – Deus sabe que é preciso.

Ela dormiu sem perceber. Ao seu lado, Matias admirava a beleza suave, a pele branca, os longos e sedosos cabelos castanhos. Fazia três semanas que a conhecia, e decidira que deveria cuidar dela e da criança que ela trazia.

Na primeira semana vazara o olho de um malandro que tentara se aproveitar dela. Dias depois dera três facadas na barriga de um dos muitos loucos que viviam perambulando pelo Centro, pois ele ficara extremamente agressivo quando vira aquela linda menina de dezesseis anos andando por ali em farrapos.

Após esses incidentes as coisas ficaram mais tranquilas, pois os outros moradores perceberam que Matias mataria qualquer um que se aproximasse da jovem mãe. E Matias não estava para brincadeira.

– Eu já matei um fardado – confidenciou ele à garota numa daquelas noites frias. – Ele tava batendo no Seu Nonô, o cego que fica na parada da César Cals. Pedi pra ele parar, mas ele ficava lá, rindo… tava possuído! Aí eu peguei uma barra de ferro e taquei na cabeça dele. Ele caiu, mas eu não consegui parar de bater. Aí, quando eu percebi que ele tinha batido as botas, passei uns meses sem aparecer aqui. Quando voltei, todo mundo sabia que tinha sido eu, mas ninguém me entregou. Agora eles me respeitam.

A menina Marina aparecera alguns meses depois apenas com a roupa do corpo. Fora expulsa de casa quando o pai descobriu que ela estava grávida e não acreditou na história dela. Realmente era algo incrível, mas já havia acontecido uma vez, não é? Por que não poderia acontecer de novo?

Um vento frio e forte começou a soprar do Leste. Cheiro de chuva e, logo, os pingos começaram a cair. Grossos e pesados, criavam respingos que batiam em suas pernas. Percebeu que Marina se encolheu de frio, pegou o papelão sobre o qual estava sentado e colocou-o sobre ela.

Sim, ele a protegeria. Contra tudo e todos. Se fosse preciso, mataria de novo. Por ela, e pelo bebê especial.

O sol estava quase nascendo quando o carro encostou. Um homem forte, de meia idade, desceu e gritou:

– Marina! Marina!

A moça despertou assustada. Conhecia aquela voz.

– Papai?

O homem se aproximou do local onde ela dormia. Matias estava de pé, faca em punho, pronto para se bater de morte com o estranho.

– Não, Matias, ele é meu pai! Guarde isso!

O rapaz guardou a arma desconfiado, mas manteve a postura rígida.

– Quem é esse marginal? – perguntou o homem.

– Ele cuidou de mim depois que o senhor me abandonou! – gritou a moça. – Ele não é marginal, é meu amigo!

– Ninguém tem amigos! Só a família!

– Onde estava a minha família todo esse tempo, Papai? Eu dormi na rua! Eu comi lixo! Eu passei frio aqui! Se não fosse o Matias…

O homem forte aproximou-se mais. Parecia preocupado.

– Ah, minha filha, eu me arrependo tanto do que fiz… eu não deveria ter feito isso! Mas sua mãe me fez ver que eu estava errado. Volte para casa, nós cuidaremos de você!

– Não vou voltar para onde ninguém acredita em mim, Papai! Não sou mentirosa!

– Podemos discutir isso depois, Marina… vamos, entre no carro. Deus, você precisa de um banho!

– Não quero ir!

O homem se adiantou e pegou-a pelo braço. Matias pulou com a faca na mão e por pouco não abriu um talho no braço do outro.

– Solta ela! Ela não quer ir!

– Não se meta, seu marginal!

– Eu te mato, filho da mãe!

– Parem! – gritou a menina. – Tudo bem, Papai, eu vou! Mas deixe o Matias em paz! E deixa eu me despedir dele…

– Não demore – disse. – Não quero ter que passar nem mais um minuto aqui nessa imundície.

Matias estava fora de si, mas Marina conseguiu se aproximar dele e o abraçou.

– Vai ficar tudo bem, meu querido – disse ela. – Ele é meu pai. Vai cuidar de mim.

– Ele é mau! – grunhiu Matias. – Ele te expulsou!

– Mas ele se arrependeu. As coisas vão ficar bem, não se preocupe. E obrigada por tudo.

Ela deu um beijo no rosto dele e percebeu que ele chorava.

– Quem vai te proteger agora? – perguntou ele.

– Deus vai cuidar de mim e da criança – falou a menina. – Adeus, Matias.

O rapaz chorava. Seus ombros tremiam enquanto ele suspirava alto. Marina caminhou até o pai e conversou com ele por alguns instantes, e voltou com um maço de notas.

– Aqui – disse ela. – Aceite isso como gratidão.

– Não precisa – disse o rapaz. – Não fiz nada por dinheiro.

– Por favor… por mim! Aceite!

Matias olhou no fundo dos olhos da moça e pegou o dinheiro.

– Pra comprar droga, seu merda! – gritou o pai da moça.

– Vá, linda – disse Matias. – Senão eu mato ele.

Ela o abraçou mais uma vez e entrou no carro.

A viagem foi feita em silêncio. Quando chegaram em casa, Dona Solange, chorando, a abraçou pedindo perdão. Aquilo nunca mais aconteceria com sua filhinha, prometeu ela.

Marina passou mais um instante ali e foi para o quarto. Tomou um banho quente demorado, vestiu uma camisola frouxa e confortável, deitou na cama e dormiu.

Acordou com o cheiro de comida. Estava faminta, e o bebê não parava de mexer.

A mãe a aguardava na cozinha.

– Venha comer, minha princesa!

Ela sentou à mesa e, à vista do prato de comida – feijão, arroz e carne moída –, lembrou de Matias e começou a chorar.

– O que foi, meu amor?

– Nada, mãe. – Enxugou os olhos e começou a comer. – Não lembrava que sua comida era tão deliciosa.

A mãe sorriu e passou a mão em seu rosto.

– Seu pai teve um sonho ontem à noite, princesa – disse. – Um homem todo de branco dizia que deveríamos te procurar e trazer de volta pois você estava falando a verdade.

– É claro que estou, Mãe! Eu nunca tive relações com ninguém!

– Agora eu sei, filha… mas antes… era difícil acreditar. Seu filho… meu neto! É ele quem estivemos esperando por todo este tempo!

– Acho que sim, mãe. Acho que é.

Dona Solange estava dividida entre risos e lágrimas. Ele nasceria em sua casa! Depois de tanto tempo de espera, todo sofrimento acabaria! O Inimigo seria derrotado pelo seu neto! Que maravilha!

A menina compartilhava parte de sua alegria, mas sentia–se infeliz pelo que o pai havia feito com ela. Será que ele achava que ela esqueceria tão facilmente a maneira estúpida com a qual ele a havia tratado? Ela era apenas uma criança perdida, e sabia tanto quanto ele o que tinha acontecido! Aquela gravidez havia sido uma surpresa para ela também! O sonho com o homem loiro vestido de branco só viera depois, quando ela pensara em abortar antes que descobrissem.

Mas agora ficaria tudo bem, pensou ela enquanto enxugava as lágrimas. Aqueles pensamentos negativos fariam mal para o bebê, pensou. Estava próximo o momento de tê-lo em seus braços, amamentá-lo, passar a mão em seu rostinho, sentir seu cheiro…

Passou o resto da tarde em seu quarto lendo seus antigos diários. Cochilou, acordou no início da noite e jantou com seus pais enquanto falavam amenidades, fingindo que estava tudo bem. Após a refeição, retirou-se para seu quarto e dormiu.

Acordou sentindo fortes dores. Contrações? Um líquido quente molhou a cama enquanto estava deitada. A bolsa rompera! Tentou gritar pelo pai, mas a voz não saía. Estava paralisada! Estaria tendo um pesadelo? Lera algo sobre isso na Internet, paralisia do sono? Não entendia, mas a dor era verdadeira. Sentia-se úmida entre as pernas e aquilo também era real. Tentou gritar mais uma vez, mas foi em vão.

A dor aumentou. Uma forte pontada na barriga pegou-a de surpresa. Quase desmaiou. Sentia-se sendo rasgada de dentro para fora. Seria essa a dor do parto? Estava desesperada e não podia fazer nada!

O ciclo de dores ficou mais intenso. Estava suada e sentia o cheiro do sangue. Era um pesadelo lúcido! Tentou se acalmar, mas aquela situação irreal deixara-a cega e confusa. O que estava acontecendo? O coração batia como um surdo em seus ouvidos.

Mais um estouro de dor, a maior de todas. Então sentiu-se vazia e aliviada. Conseguiu se mover um pouco, porém estava tonta. Fraca. A visão turva.

Arrastou-se um pouco para trás no colchão e apoiou suas costas na cabeceira. Ainda havia dor, mas o alívio que sentia encobria-a sem esforço. Foi quando ela viu o bebê entre suas pernas.

Mesmo coberto de sangue e fluídos, ele era belo. Estava com os olhos abertos, e ela podia reconhecer em seu rosto traços de sua própria beleza – o narizinho arrebitado, os lábios grossos. Parecia um anjo!

– Como é lindo meu filho – sussurrou.

Pegou o bebê nos braços e o amparou junto ao seio inchado e dolorido. Ela era mãe agora, isso era um fato. E ela já amava o bebê.

– Você vai se chamar Cristiano – disse enquanto ajustava a boca do bebê em seu mamilo.

A primeira sugada foi estranha. Dolorosa. Então a dor foi se tornando mais intensa. Ela tentou afastá-lo do mamilo, mas ele não soltava. Parecia que ele a mordia! Mas isso era impossível!

Ela olhou para o bebê – Cristiano – e percebeu que ele a encarava. Olhos de um azul claro profundo, estranhamente maduros.

Então ele sorriu, e ela percebeu que os pequenos dentes pontiagudos estavam manchados de vermelho.

Marina já não sentia mais dor. Mergulhara numa onda quente de torpor, como um banho no mar ao fim da tarde. Sentia uma mistura de medo e amor por aquela criança especial, que bebia sua vida para sobreviver.

Como num sonho distante ela sentiu que o bebê soltava seu peito. Uma vozinha fina e ainda hesitante soou dentro de sua cabeça:

– Acho que eu não sou quem vocês estavam esperando, mamãe.

Sorrindo, ele voltou a sugar.

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Contos

A Linhagem da Escuridão – Decisões (Capítulo 1)

Michel Euclides

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Confira o epílogo dessa história clicando aqui: A LINHAGEM DA ESCURIDÃO: A CAIXA (EPÍLOGO)

Capítulo 01: Decisões.

Fortaleza, Monte Castelo. Miguel caminhou até a sala. Ao sentar no sofá, viu a maleta sobre a mesa, junto às fotos. Viu seu pai em uma fotografia e assustou-se mais uma vez com a semelhança.

O que acontecera na noite em que sua mãe morrera? Quem fora realmente seu pai? E aquela senhora… o que era ela?

Quem eram “eles”?

Muitas perguntas. E curiosidade. E medo.

O relógio na parede marcava meio dia. Parte da sensação de estranheza deve ser fome, pensou.

Olhou para a maleta mais uma vez e foi até a cozinha esquentar o resto do jantar de ontem: baião de dois e bife com purê de batatas.

Comeu como um robô. Não conseguia parar de pensar que aquilo poderia ser um sonho. Ou uma alucinação.

– Talvez eu esteja começando a ficar como meu pai – sussurrou.

Após o almoço e um banho frio, foi até a sala esperando que tudo o que acontecera pela manhã tivesse sido apenas um sinal da loucura armazenada em seus genes, mas a maleta ainda estava lá.

Chega de enrolação, pensou.

Abriu a pasta e viu que no envelope marrom havia mais fotos: os três juntos, a mãe sozinha, depois ele crescendo através do tempo. Atrás de cada imagem, uma data e uma legenda. Em uma delas ele estava no fim da adolescência, tocando violão sozinho no jardim de casa. O pai anotara:

Dia 05/06/1997 – Miguel está com 16 anos. É alto e bonito como a mãe, mas posso ver os sinais. Ele tem os sinais. Não vai conseguir escapar. Preciso dar um jeito de protegê-lo até que esteja pronto…

Ou o pai era louco e ele estava ficando igual… ou aquilo era real. Tinha de ser.

Deixou as fotos de lado e retirou um caderno de capa preta de dentro da maleta. A capa, as pontas e a lombada estavam desgastadas. Escrito num adesivo branco colado na frente, a letra ordenada e clara de seu pai:

Miguel Antunes
Diário
Por favor, não mexa sem minha permissão.

Se você me permite, pai, vou vasculhar sua vida, pensou.

– É preciso cuidado ao lidar com o diário, filho – disse ela.

Surgira de repente ao seu lado no sofá, coberta por uma nuvem transparente de Flor de Limão.

Miguel tomou um susto mas procurou disfarçar.

– Pensei que você precisasse de um convite para entrar – disse ele.

– Na primeira vez – ela respondeu. Olhou para a pasta, as fotos e o diário. – Posso?

– À vontade – respondeu. – Mas você precisa da autorização de meu pai para mexer aí…

Seus olhos ficaram vermelhos. “Perigo!”, dizia seu corpo. Ele teve vontade de sair correndo, o coração descontrolado. Mas ficou.

– Não brinque com essas coisas, garoto – falou. – E além do mais, o único Miguel Antunes vivo aqui é você. Eu tenho sua permissão?

Miguel assentiu e ela voltou ao normal como se nunca tivesse passado por uma mudança. Parecia uma avozinha.

A senhora Flor de Limão pegou uma das fotos em que a família estava reunida, e Miguel pôde notar a umidade em seus olhos.

– Ela era linda – sussurrou a velha. Jogou a foto de lado e, enquanto agarrava o diário, começou a sussurrar: “Putrefação que consome lentamente, Tempo que corrói, Vida que termina. Possuo a permissão do sangue para abrir a porta do destino. Revele-se! ”.

Havia um vazio em sua mente e uma ausência em sua alma enquanto ela dizia aquelas palavras. Miguel sentia como se não estivesse mais ali e, por alguns instantes, esqueceu seu nome. Sombras corriam pela sala, negando a luz do dia. Estava frio. Estava distante…

– Fique comigo, Miguel – disse ela. – Eu disse que precisava de cuidado ao abrir o diário. Seu pai não era louco.

Despertou. O relógio da sala estava parado: três da tarde.

– O que está havendo? O que são aquelas palavras?

– Uma fórmula assíria de desocultação. Se dita pela pessoa errada ou fora de cadência, abre uma passagem direta para o Inferno.

Isso era loucura, pensou enquanto balançava a cabeça. A velhinha sorriu.

– Não é loucura. Nós estamos agora no Limbo, um simulacro de existência que é criado pela energia que seu pai depositou no diário. Podemos passar dias aqui, semanas até. E quando eu fechar o diário, não haverá se passado tempo.

– Isso é impossível!

– No mundo material regido pelas leis da física sim. Mas não estamos mais lá, Miguel. Você não queria olhar dentro da escuridão? – Ela abriu os braços e sorriu. – Bem-vindo.

Sentou ao lado dela. Suas mãos tremiam.

– Você entendeu as palavras que falei? – perguntou a senhora.

Ele fez que sim.

– Isso é importante. Você lembra de alguma coisa do seu pai?

– Ele cantava para eu dormir. Todas as noites.

– Como eram as músicas?

– Estranhas. Meio sussurradas, como se estivessem presas na garganta dele. E tinham um sabor estranho.

Miguel estava de olhos fechados agora. O tremor passara. Ela continuou:

– Sabor de que?

– De canela, pimenta, cravo. Areia. Maresia. De sândalo. De alho. De vento. De água.

– Essas canções eram antigas?

– Sim – disse ele, a voz monocórdia. – De antes do mundo como o conhecemos.

– Talvez seu pai fosse mesmo um pouco louco, mas suponho que não poderia ser de outro jeito. Acorde, Miguel, preciso de você aqui.

Ele retornou devagar. Lento. Como se sua alma estivesse procurando os encaixes corretos.

– O que meu pai fez comigo? – perguntou.

– Saturação – falou a velha. – Ele criou uma linha de acesso e encharcou seus genes com tudo o que ele sabia. Ousado, condenável… mas necessário, eu suponho. Agora entendo porque as coisas tomaram o rumo que tomaram.

– Minha mãe?

– Temo que sim, filho – disse ela, e havia carinho em sua voz e em seu olhar. – Entre outras coisas. E você vai ter que ser forte.

– Por que?

– Porque quando fecharmos o diário, eles saberão que você despertou. E virão atrás de você.

Ele levantou, as mãos esticadas diante do corpo.

– Peraí, quem são “eles”? Quem é você?

Ela sorriu.

– Sente e acalme-se. A história é difícil.

– Preciso de água – disse ele, e saiu em direção à cozinha. Quando voltou trazia um pouco para ela, o isqueiro e o cinzeiro, que depositou sobre a mesa.

– Ora, mas não é um jovem galante, esse rapaz? – Sorriu e bateu palmas. Acendeu o cigarro, bebeu um pouco da água e continuou.

– Há coisas e pessoas muito ruins no mundo, Miguel. Na maioria das vezes elas não trabalham juntas, mas há momentos na história da humanidade em que elas se unem para governar e destruir. Chamamos estes momentos de “Convergência”. Há trinta anos seu pai e o nosso grupo evitou aquela que pensamos ser a última. Foram custos muito altos, com poucos sobreviventes de nosso lado.

“Mas estávamos errados. Não a havíamos impedido, apenas adiado. Eles recuaram e estão voltando mais fortes”.

– Essas Convergências…

– A revolta dos Anjos. A Queda. O Dilúvio. As Pragas do Egito. O desaparecimento de Atlântida. A queda de Camelot. As Cruzadas. A Inquisição. A ascensão do fascismo e do nazismo e as Grandes Guerras. A guerra do Vietnã…

– Mitos misturados com história. Não me faça de bobo.

– Não, filho. Mitos não. Você não tem a sensação de que está tudo errado com o mundo? Que há coisas e pessoas agindo nas sombras para que tudo vá de mal a pior?

Miguel engoliu em seco. Era exatamente assim que se sentia a maior parte do tempo. E a loucura espreitava por trás de seus olhos.

– Não se preocupe com a loucura, filho. Seu pai era um dos homens mais lúcidos que já conheci.

– Eu ouço vozes e vejo coisas…

– Quanto a isso, temos de trabalhar. Você precisa de treinamento, e nós vamos providenciar isso.

– Quem são vocês?

Ela colocou a guimba do cigarro no cinzeiro, pôs-se de pé e sorriu.

– O enterro de seu pai é daqui a duas horas. Há um carro aí fora para nos levar. Vá trocar de roupa.

– Mas… e o limbo?

– Já saímos.

O diário estava fechado sobre a mesa. Os relógios funcionavam novamente. Mas havia algo estranho.

– Um zumbido…

– Eles sabem de você agora. Mas não se preocupe, enquanto eu estiver por perto nenhum deles vai se aproximar. Vamos, troque de roupa. Eu espero.

Miguel tomou um banho rápido e se vestiu. Calça, camisa e sapatos pretos. Colocou os óculos escuros e saiu.

Uma Mercedes preta estava estacionada diante de sua casa. Os vizinhos olhavam desconfiados, mas ele não se importou. A porta se abriu e ele viu a pequena senhora lá dentro. Entrou.

– Você fica bem de preto – disse ela.

– Obrigado – respondeu.

– Bom, acho que devo a você meu nome, não é?

– Pelo menos isso, acho – disse ele.

Ela sorriu. Usava um bonito vestido branco rendado, mas com um simples gesto mudou totalmente de aparência. Não era mais uma avozinha: era uma jovem mulher, alta, de cabelos escuros e olhos azuis. A pele branca emitia um brilho pálido. Tinha dentes perfeitos. O vestido agora era preto, ajustado ao corpo jovem e desejável. Ela estendeu a mão de dedos longos e finos e disse:

– Fui conhecida por muitos nomes, Miguel. Hoje, para você, sou Lilian.

O toque de sua mão era quente, mas pesado e lento. Havia muita história, e ele sabia que aquele não era seu nome real. Mas haveria de descobri-lo.

– Olá, Lilian.

Ela bateu no vidro que os separava do motorista e disse:

– Para o cemitério São João Batista, Pedro. Esse rapaz precisa se despedir do pai.

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Contos

São Pedro não chamará meu nome – Pt. 1

Wilson Júnior

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Caldeirão de Santa Cruz do deserto, Crato-CE dia 11 de maio de 1937.

              Faz três anos que o padrinho morreu, agora não tinha ninguém entre os poderosos para interceder por nós. Beato José Lourenço fez a prece com a gente naquela manhã, com fé e força iriamos lutar pela terra abençoada por nosso Senhor Jesus e por nosso Padrinho Padre Cícero. Mas eu já antevia o pior, os homens viriam com fogo e ferro, e aqui tem poucos guerreiros, a comunidade era de amor e fé, eles só queriam o direito de trabalhar em paz na sua terra. Mas o pobre não tem direito a paz em terra de gente poderosa, a paz do pobre ameaça a do rico.

           Teve gente indo embora com medo, mas a maioria ficou, queriam acreditar no poder do Padrinho e do Beato, eu já acreditava. Durante anos eu pensei que era amaldiçoado por Deus sem nunca entender por que, até que eu confessei com o padrinho, e ele como homem de Deus me abençoou, disse que o que eu tinha era um dom, e que eu deveria usar em prol dos necessitados.  Falou que, quando eu cumprisse meu dever, ele mesmo falaria com São Pedro para chamar meu nome. Mas alertou que não deveria ter poder ou riqueza ou meu milagre virava a maldição que eu tanto temia. Eu nasci para ser um servidor. E Servidor foi o nome que ele me deu, daquele dia em diante eu seria Francisco Servidor.

            Então aqui eu estou: homem de frente, para defender o povo e ganhar meu espaço do lado do meu padrinho no céu.

            Nós esperávamos atrás das barricadas. Quem podia lutar tava com trabuco na mão e uma peixeira no cóis da calça. A gente ia morrer lutando ou, pelo menos, era isso que eu desejava. Nos preparamos bem, até um fosso foi cavado para atrapalhar a entrada deles, nossa vontade somada ao poder de Deus nos daria a vitória, era o que acreditávamos. Como éramos tolos. Esperamos e esperamos, mas em vez de tropas vieram os aviões, e sobre nossas cabeças choveu o fogo do diabo. Não houve luta. Foi um massacre. As bombas caiam explodindo barro, madeira e carne. O fogo rapidamente lambeu nosso lar que foi tão arduamente construído, tanto suor, sangue e lágrimas tinham sido em vão. Em algumas horas o que anos de trabalho haviam erguido do pó tinha vindo ao pó tinham voltado.

            Quando as tropas a pé finalmente vieram, foi pra dar o tiro de misericórdia. Uns poucos sobraram pra lutar, e esses fizeram um estrago com os paus-mandados do governo, mas era uma luta perdida. Um a um, foram tombando. Eu fiquei por último, só parei quando arrancaram as duas pernas. Antes de perder a consciência eu pude ver o horror nos olhos daqueles soldados.

 ***

Fortaleza-CE, dias atuais.

             Por muitos anos tenho andado perdido no mundo, um homem sem fé, sem rumo, sem vontade. Meus passos perdidos ironicamente me trouxeram a este lugar. Chega ser cômico estar aqui após tantos anos de fuga. Sinceramente não sei se foi escolha ou acaso, mas sei que a vergonha me consome, pois esse caminho eu abandonei há muitos anos e nunca é fácil ser o filho pródigo.

            – Não se intimide meu jovem, essa é a casa do Senhor. Você é bem-vindo aqui. – disse um velho frei de cabeça tonsurada. Tive que sorrir no “meu jovem”.

            – Obrigado Frei. Estou apenas admirando. – na minha frente se erguia a velha igreja de estilo franciscano.

            – Nós dois sabemos que não é por isso que veio. – a ironia em seus olhos era notável, era quase como se soubesse quem eu era.

            – E por que vim então?

            – Veio servir, é claro. – aquelas palavras me atingiram como um raio. – E nós estávamos a sua espera.

            Não havia coincidência ali. De alguma forma aquele sujeito sabia quem eu era, e soube exatamente o que dizer para tocar meu coração aflito. Vergonha, medo, angústia… tudo de uma vez.

            Daí para frente foi um turbilhão, num momento estava aos pés do frei em lágrimas, no outro eu me confessava. Quando tudo passou eu estava de bata marrom, com a cabeça tonsurada.

            Algumas coisas são difíceis de explicar ou entender. É simplesmente mais fácil aceitá-las – e aquilo era exatamente o que eu buscava. O homem peca demais em uma vida só, imagine o quanto eu não pequei na minha. Houve um tempo que minha preocupação era nunca ser chamado por São Pedro. Hoje eu sei que mesmo que meu fim chegue, não escutarei a voz do santo em decorrência das coisas que fiz. Sou um maculado e só esse lugar poder limpar a sujeira de minha alma e de minha vida. Agora viveria uma vida simples de servidão e paz ou, pelo menos, era o que eu acreditava.

            – Nós sabemos quem tu é, Francisco – disse o Frei Albano para mim com seriedade. – E nós vamos precisar da tua benção, assim como Cícero precisou. – completou.

            Com aquelas palavras diretas o abade jogou um balde de água fria naquilo que eu acreditava que seria meu destino naquele lugar, como eu era tolo, a paz nunca seria parte da minha vida, por isso eu ansiava tanto pela morte.

            – Não quero contestá-lo Frei, mas não foi isso que me trouxe aqui.

            – Discordaremos disso meu filho. Tu não é um único que tem benção, o mundo está cheio de iguais a ti, não com a mesma benção, mas com suas próprias. Nem todos usando-as nas graças do senhor, e ai está o problema. Mas esse não é assunto do momento, primeiro meu filho você precisa ser testado.

            – Testado?

            – Sim. Esse não um monastério comum, filho. Sinto informá-lo tão tardiamente. – ele não estava arrependido de verdade. – Somos a Igreja da Balança.

            – Igreja da Balança?

            – Nosso propósito é equilibrar o mundo, para que cada ser humano possa levar uma vida digna até ser julgado por Nosso Senhor.

            – …

            – Nem preciso ressaltar para você o quanto estamos fracassando. – disse ele cheio de tristeza. – Mas agora estamos encontrados as Bençãos do Senhor e finalmente teremos força para sermos efetivos. Mas acredite: sem nosso trabalho e de outros como nós pelo mundo tudo estaria muito pior.

            Ele acreditava verdadeiramente nisso.

            – E onde eu entro nessa história?

            – Você, meu filho, é uma das primeiras Bençãos registradas. Verdade seja dita: não foi com esses olhos que Santa Igreja os viu durante muito tempo. Cícero pode não ser o santo que muitos pregam, mas sempre foi um homem de visão, ele pode ver que dons como os teus poderiam ser usados para a obra do Senhor.

            – Ele que me convenceu que eu não era amaldiçoado, apesar de até hoje existir uma luta em mim sobre essa questão. Ainda assim, Frei, não sei se estou disposto a seguir por essa estrada novamente. Viver um mundo de violência, foi que acabou me trazendo a este lugar. Não sei se quero retornar para o buraco de onde saí.

            – Não se pode chamar de violência a execução da Obra do Senhor.

            – Há alguns anos eu concordaria cegamente com você, mas esse sujeito morreu. Literalmente. Violência é violência, e todos que a praticam sempre tem argumentos que legitimam a sua.

            – Então não irá nos ajudar.

            – Não dessa forma.

            – Entendo. – disse o frei decepcionado.

            – Devo ir embora?

            – Como lhe disse no início, essa é a casa do Senhor, e você é bem-vindo aqui.

            Me retirei para meu claustro, a cabeça cheia de informação e sentimentos que precisariam de uma noite de sono para ser processados.

***

Serra do cruzeiro, Cariri-CE dia 15 de maio de 1937.

             A chuva havia amolecido a terra e eu finamente consegui cavar para fora daquele lugar de morte. Quando finalmente consegui respirar o ar tragado entrou como se cortasse meus pulmões, rapidamente o odor de morte tomou conta. Olhei em volta e vi os contornos daquela vala que ia até se perder de vista. Sequer deixaram o povo ter um velório cristão, enterrados como bichos jogados num buraco sem nome. Homens sem fé e sem coração. Lá estava eu mais uma vez, vivo depois de tudo. A escuridão era profunda e a chuva torrencial. E nenhum outro momento minha longa vida eu estive tão confuso. Primeiro pensei que o padrinho havia mentido para mim. Lutei dei o meu melhor, mas não havia nada que eu pudesse fazer para salvar aquele povo e mesmo assim ali estava novamente de pé. Ou eu não teria sido merecedor do chamado de São Pedro? Essas dúvidas assolaram meu coração naquela noite, sentado no escuro eu chorei lágrimas invisíveis na chuva, com a certeza no coração de que São Pedro não chamaria meu nome, que eu era um amaldiçoado, e que meu Padrinho me abandonou nesse mundo governado pelo cão.

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Contos

Do-Cocó

Wilson Júnior

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Dor. Posso sentir a água entrando em meus pulmões. Tento me mexer mais meu corpo está letárgico. Meu espírito não quer desistir mas o corpo simplesmente não reage. A água parece pequenas agulhas descendo pela garganta e pelo nariz. As plantas enredam meu corpo, como tentáculos vivos. É assustador. É como se eu fosse capaz de assistir minha própria morte, e ao mesmo tempo, senti-la.

Há quantas horas estou aqui, ou seriam dias? Faz muito que perdi a noção do tempo, mas o mínimo de percepção que eu tenho do mundo que me cerca me diz que já deveria ter morrido. Será que isso é morrer? Será que a eternidade para mim será um mergulho nas águas fétidas e poluídas desse rio?

Cada vez mais não me sinto como algo que caiu na água, pareço ter me tornado parte dela. Será que em vez de morto estou louco?

– Alguém me ajuda!!!! – essa voz não partiu de mim. Tem alguém em perigo e eu não posso ver, não posso me mover.

– Cala boca sua puta se não eu te furo! – A segunda voz é áspera, agressiva e estranhamente familiar.

Tenho a estranha sensação de já ter visto aquela cena.

– Eu queria só teu celular, mas só porque tu gritou agora a gente vai se divertir aqui. – Ele mentiu. Não sei como, mas sei que ele estava mentindo. Ele não queria só o celular desde o início.
– Por favor me deixa em paz, toma minha bolsa tem tudo ai. Eu te dou as senhas dos cartões, mas pelo amor de Deus não faz nada comigo. – Ela suplicava, sua voz embargada pelo choro.

– Vou te mostrar por que era pra tu ter me respeitado sua safada! – dizia a voz áspera e uma raiva crescia dentro de mim.

– Aqui tu vai gritar e ninguém vai te ouvir! Aqui tu vai gemer! – senti que eles estavam mais próximos, ainda sim, não podia vê-los, será que estava cego?

– Por favor não fa… – a voz é abafada por um baque, momentos depois, sinto o sabor do sangue dela tocando na água.

Escuto o barulho de tecidos sendo rasgados, baques surdos de golpes, pequenos gemidos e suplicas, gritos de dor e de desespero.

Lá estou eu, testemunha da violência e nada pude fazer, a todo momento aquilo tudo me parece tão familiar, aquela voz, aquela violência. Eu não posso deixar aquilo se repetir. Aquilo o que? Tento me mover. Eu quero ver. Eu preciso ver o que está acontecendo.

De repente se faz luz. A luz da lua ilumina, mas é muito pouco, por causa das nuvens. Não muito longe eu vejo as formas, ela caída de bruços, ele despindo-se sobre ela. Meus olhos parecem cortar a escuridão, o que antes era cegueira completa se tornou uma poderosa visão.

Ele à xinga, bate, humilha. Ouço os carros na avenida logo ao lado, mas eles estão fora do campo de visão de qualquer transeunte. Eu estou no rio, mas não vejo meu corpo, não há nada que represente o que sou.

– Por tudo que é sagrado não faz isso comigo… – a súplica dela lacera meu coração. Não posso deixar isso acontecer.

Sinto braços e pernas. Depois de mais alguns segundos sinto o corpo.

Ele está sobre ela, a fúria em mim cresce por não ter impedido o início, mas ainda posso pará-lo. Eu sei que o vai acontecer, eu já vi isso, mas onde?

Nado até eles estico meus braços eles tão cobertos de plantas, com meus braços e pernas envolvo o corpo dele e o puxo para água.

– Que porra é essa? – ele consegue dizer antes deu tragá-lo para o rio. Escuto um grito da moça antes de sumir de volta na água.

Ele luta, percebo que ele saca sua faca e golpeia meu corpo, mas nada importa, nada que faça irá me fazer soltá-lo agora, morreremos os dois aqui na água.

Durante pouco mais de um minuto ele luta, vejo em seus olhos o terror ao me olhar, ele solta todo o ar que tinha do susto, se debate com todas as forças mas é em vão, o meu abraço é letal, minha vontade inabalável. Seu olhar é tão familiar, ainda mais familiar é a sensação dele enfiando a faca em meu corpo. Dessa vez não há ferimento. Houve outra vez?

Ele para.

O mantenho submerso mais algum tempo por garantia, quando finalmente solto seu corpo inerte, ele afunda como uma pedra para um fundo do rio.

Olho para a margem ela está lá, estática olha para o rio como se algo fosse sair de dentro e tragá-la. Escuto seu coração e ela está assustada demais para se mover. Lentamente me dirijo para lá, sinto o cheiro suave de seu perfume misturado ao medo.

Quando emerjo da água ela me olha de cima a baixo, seu coração acelera de uma forma violenta, ela está mais assustada do quando o sujeito estava sobre ela.

Ela grita e começa a correr.

– Não vou te fazer mal moça. – eu digo seguindo ela.

Ela vai em direção a rua, eu a persigo, ela pode correr para avenida e ser atropelada.

Já consigo ver a luz dos postes iluminando a rua, os faróis de carro passando, uma sirene de polícia tinge a orla da mata. Mesmo ao longe escuto a conversa entre os dois policiais.

– Mais um carro abandonado aqui.

– É a segunda vez essa semana. A gente não tinha mandado fechar esse buraco na cerca, tem gente usando para assaltar. Ainda não acharam as vítimas do outro.

– É o pneu tá furado com um pedaço de pau preso. – disse o policial. Nessa hora eu me lembro de quase perder o controle do carro. Não era hora para lembranças.

Ela atravessa o buraco na cerca verde, eu sigo junto para explicar o ocorrido (à)a polícia, eu matei um homem, mas foi legitima defesa.

Quando eu saio da mata pela abertura da grade, foi feita para dificultar os assaltos mas estava danificada. Vejo ela falando com os policiais, coloco minhas mãos para o alto, não quero causar confusão.

No momento que coloco meu pé na calçada, vejo o carro parado com o pedaço de pau na roda, o triângulo, sou tragado por uma lembrança.

***

Desço do carro, a droga do pneu tá furado com um pedaço de pau grudado.

– Que porra de brincadeira de mal gosto. Amor, o pneu furou, tenho que trocar. – digo para ela, olhando em volta no lugar mal iluminado.

– Meu deus logo aqui. – ela disse preocupada.- Não se preocupa vou trocar rapidinho. – tento tranquilizá-la, mas estou com medo também, já passa da meia-noite.

Eu abro a mala pego os apetrechos para trocar o pneu, ela fica parada ao meu lado, linda, com seu vestido vermelho.

– Assim você me desconcentra.

– Deixa de ser bobo e faz logo isso, aqui é perigoso.

Começo a afrouxar os parafusos para tirar o pneu.- Amor me dá uma toalha que tem no porta-malas. – digo estendo a mão e não recebo resposta.

Me viro e ele já tá com a faca no pescoço dela. Seus olhos vidrados.

– Calma cara não precisa disso.

– Bora! Bora vem comigo ou eu corto a garganta dela aqui.

Eu o acompanho até um buraco na grade que eu não tinha visto, apenas um carro passa por nós, torço para ele ter notado e chamado a polícia. A gente entra mata a dentro, tudo vai ficando mais escuro o tempo todo ele a ameaça.

Finalmente paramos na beira do rio.

– Calma cara a gente vai te dar tudo, não precisa de violência, até ajeito o carro para você ir nele.

Ela a joga de lado e corre em minha direção, sequer tive tempo de reagir. Sinto a faca entrando no meu peito, sinto uma segunda facada no estômago, depois não sinto mais nada, nem o frio da água quando ele me empurra para o rio.

Fico ali boiando. Eu escuto tudo que ele faz com meu amor antes da consciência me deixar.

***

Quando volto o policial está gritando e apontando a arma em minha direção.

– Que porra é essa Lima? – pergunta ele para o colega que também aponta para mim assustadíssimo. A moça só chora de lado aterrorizada.

– Calma oficiais é tudo um mal entendido. – tento explicar mas em resposta tudo que recebo são tiros, sinto as balas perfurarem o meu corpo, mas elas parecem não me machucar, exatamente como a faca.

Fujo de volta para a mata, eles não me seguem mas os escuto pedindo reforços. Corro de volta para a água, sem entender por que fui atacado daquela forma. Eu só quis ajudar. Mas de verdade o que me afligia era a memória. O teria acontecido ao meu amor? Onde estaria Júlia? Eu sinto que sei a resposta, mas não quero aceitar. Entro novamente na água onde me sinto seguro.

Tudo que se passa em minha cabeça é o que terá acontecido com ela? Preciso encontrá-la? Essa é a minha vontade e era maior que tudo.

Sinto um cheiro estranho, um odor dissonante do resto naquele lugar. Um odor de morte. A princípio pensei ser o bandido que atacou a moça, mas ainda estava cedo para seu corpo subir. O medo tomou conta de mim. Então nado em busca do cheiro. Quanto mais me aproximo mais meu coração acelera, isso se eu tiver um.

Ao longe eu avisto, o manto vermelho preso entre algumas árvores e raízes dentro da água. Me aproximo a vejo. Seu corpo está inchado e deformado, o vestido vermelho puído. Eu choro enquanto abraço seu corpo. Mesmo entre os odores do rio, e o cheiro de morte, posso sentir seu doce perfume.

Levo ela para a margem para que a polícia encontre seu corpo, ela não pertence aquele lugar. Fico alguns minutos ali sobre seu corpo, a dor é tão profunda que eu preferia estar morto junto com ela. Finalmente escuto polícia vindo fazer as buscas. Com um beijo suave em sua testa eu me despeço.

Quando relutante vou voltar para o rio novamente a luz da lua irradia forte e vejo meu próprio reflexo na água. Aquele não era eu, era um monstro feito de água e plantas, uma criatura saída dos filmes de terror. Eu tendo arrancar as folhas, tentando descobrir se existe um rosto ali embaixo, mas novas tomam o lugar no mesmo instante.

Escuto a polícia chegando atrás de mim, eles atiram novamente, mas eu já tinha desaparecido no rio.

A criatura do cocó. Esse foi o nome que me deram. E naquele lugar eu estava preso, até quando?

 

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