Críticas

Luzes piscando na escuridão: a despedida perfeita (e agridoce) de Stranger Things

Um ciclo que começou com uma mesa de D&D e terminou com corações cheios de nostalgia

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Quando Stranger Things estreou em 2016, ninguém poderia prever que aquela história aparentemente simples — um grupo de crianças, um desaparecimento misterioso e um mundo estranho logo abaixo da superfície — se tornaria um dos maiores fenômenos da cultura pop da última década. O que começou como uma homenagem aos anos 80 logo se transformou em algo muito maior: uma história sobre crescer, perder, amar e seguir em frente. Agora, com o encerramento da quinta temporada, a série se despede de nós de forma épica, emocionante e, acima de tudo, honesta.

Desde o primeiro episódio, Stranger Things nunca foi apenas sobre monstros, portais ou conspirações governamentais. Sempre foi sobre amizade. Sobre crianças que se sentavam ao redor de uma mesa de RPG, criavam mundos imaginários e, sem perceber, aprendiam a enfrentar o mundo real. Hawkins virou palco de batalhas sobrenaturais, mas também de descobertas íntimas: quem somos, quem amamos e quem escolhemos proteger.

Ao longo das cinco temporadas, vimos aqueles meninos crescerem diante dos nossos olhos. Vimos Will deixar de ser apenas a criança perdida para se tornar peça-chave da luta. Vimos Mike aprender que liderar não é mandar, mas sentir. Dustin transformar inteligência em empatia. Lucas amadurecer entre escolhas difíceis. Max enfrentar o luto e a dor. E Eleven… Eleven aprender que poder não é força, é pertencimento.

O episódio final da série é como o último capítulo de uma grande campanha de D&D. Aquele momento em que o mestre do jogo aumenta a tensão ao máximo, lança os dados finais e deixa claro que não haverá outro turno depois daquele. A ação é grandiosa, os riscos são reais e as consequências, definitivas. Não há espaço para distrações. Cada decisão importa.

Mas o que torna esse final verdadeiramente especial não é apenas o espetáculo — é o coração. A série entende que despedidas não precisam ser silenciosas nem apressadas. Há tempo para olhares, conversas, abraços e acertos de contas emocionais. Há espaço para que cada personagem tenha seu momento, não apenas como herói, mas como ser humano.

Joyce, que passou anos lutando contra forças invisíveis para salvar o filho, finalmente encara o mal de frente. Hopper, que começou como um homem quebrado, termina como alguém que aprendeu a amar sem medo da perda. E Eleven, no centro de tudo, fecha seu arco de forma poética: não como uma arma, mas como alguém que escolheu seu próprio caminho, mesmo que isso significasse solidão.

Esse final é agridoce — e precisava ser. Porque crescer dói. Porque mudanças machucam. E porque toda jornada verdadeira cobra um preço. Essa mensagem ecoa em toda a série, mas talvez nunca tenha sido tão clara quanto naquela carta de Hopper, lá na terceira temporada. Ele falava sobre portas abertas três centímetros, sobre sentimentos que assustam, sobre como a dor é um sinal de que estamos vivendo. Aquela carta nunca foi apenas para Eleven. Era para todos nós.

Stranger Things sempre soube que o maior terror não estava no Mundo Invertido, mas no medo de crescer, de mudar, de deixar algo para trás. E o final da série abraça isso com coragem. Não tenta congelar o tempo. Não tenta fingir que tudo pode continuar igual. Pelo contrário: aceita que os personagens cresceram — e que nós crescemos com eles.

Talvez por isso Stranger Things seja uma série conforto para mim, assim como Harry Potter. Não porque o mundo seja seguro, mas porque, mesmo em meio ao caos, existe amizade. Existe amor. Existe a certeza de que ninguém precisa enfrentar seus monstros sozinho. Uma geração inteira cresceu acompanhando esses personagens, esperando novos episódios, criando teorias, se emocionando, se reconhecendo neles.

O epílogo, mais calmo, quase contemplativo, reforça essa ideia. A vida continua. Nem tudo é perfeito. Mas existe esperança. Existe continuidade. Existe a sensação de que aquela campanha acabou — mas as memórias permanecerão para sempre.

É triste dizer adeus ?. Muito triste. Mas é um tipo de tristeza boa. Daquelas que vêm acompanhadas de gratidão. Stranger Things não se despede como uma série que se perdeu pelo caminho. Se despede como uma história que soube a hora certa de acabar. Um fechamento de ciclo perfeito.

Essa aventura não poderá ser contada da mesma forma novamente. Outros vão tentar. Novas histórias virão. Mas Eleven, Mike, Dustin, Will, Lucas, Max, Hopper, Joyce e todos os outros estarão sempre guardados nessa mesa específica. Na nossa mesa.

E, como em toda grande campanha de RPG, quando as luzes se apagam, os dados param de rolar e o mestre diz “fim”, a gente entende: o jogo acabou… mas a história vai ficar com a gente para sempre. ?


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